PRIMEIRO ALINHAMENTO AUTOMÁTICO DO BRASIL COM OS ESTADOS UNIDOS EM 1964, NÃO DEU CERTO

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Não é a primeira vez que um governo brasileiro procurou se alinhar automaticamente com um país, como quer fazer o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro com os Estados Unidos da América e Israel. Durante a ditadura militar, iniciada em 1 de abril de 1964 e terminada em 15 de março de 1985, o governo do Marechal Castelo Branco se alinhou com os Estados Unidos da América (EUA) em condições bastante semelhantes.

Castelo Branco buscou esse alinhamento automático pensando de que essa nova postura da diplomacia brasileira poderia trazer consigo: “a aceitação de um certo grau de interdependência, quer no campo militar, quer no campo econômico, quer no político.” (BRIGAGÃO, 2006, p.62.), o que traria ganho para os dois países, mesmo sabendo que os EUA são uma superpotência e o Brasil um país subdesenvolvido.

O fruto imediato desse alinhamento foi a exposição do nome do Brasil como país subordinado as ordens dos EUA. Nesse período, o viés ideológico de extrema direita tomou conta da política externa brasileira. Entre as primeiras providências do Itamaraty foi cortar relações com Cuba, fechar a representação comercial da China, entre outras ações, que só viriam a ser revistas em 1967, com o General Ernesto Geisel e sua política externa de “Pragmatismo responsável”.



Ainda no período de Castelo Branco, o Brasil participou de uma intervenção, a pedido dos EUA, da República Dominicana, em um episódio que manchou a tradição brasileira de não-intervenção em assuntos internos dos países, reforçado atualmente, com a Constituição de 1998 no aeu Artigo 4º.  O então, Ministro das Relações Exteriores Juracy Magalhães traduziu a postura subserviente do governo Castelo Branco com a frase: “o que era bom para os Estados Unidos também o seria para o Brasil”.

No final desse ciclo de equívocos, que parece estar se repetindo com a eleição de Jair Messias Bolsonaro, o General Ernesto Geisel iniciou uma nova fase nas relações internacionais brasileiras, que em muitos aspectos recuperou as tradições do Itamaraty.  Segundo (Brigagão, 2006, p.66) “o pragmatismo responsável foi definido como a habilidade para usar os recursos de acordo com interesses práticos conforme essa concepção de Brasil-Potência”

No seu governo, houve o restabelecimento das relações com a China, o aumento do comércio com a África, o distanciamento do regime de Apartheid da África do Sul e o mais importante, reconheceu a Organização pela Libertação da Palestina como legítima representante do povo palestino. Nesse sentido, criou um mercado para os produtos brasileiros nos países árabes que até hoje, gera importantes divisas para o Brasil.  Também viriam as primeiras reprimendas a Israel e sua política sionista de expansão sobre os territórios palestinos.

O auge dessa política de aproximação com o mundo árabe e de um distanciamento efetivo da subserviência aos EUA, aconteceu em 10 de novembro de 1975, quando o embaixador do Brasil na ONU votou contra Israel na Resolução 3379 da Assembleia Geral. A resolução caracterizava o sionismo como uma forma de racismo. (SILVA; PILLA, 2012). Apesar do voto ser desfavorável, a política era pragmática e o Brasil seguiu sua cooperação na área agrícola com Israel.

A atual política de alguns atores externos é a de destruir a unidade da América do Sul, através da desqualificação de organismos como a UNASUL e o Mercosul. Essa postura tem como objetivo minar a integração dos países da região, criando inimizades que favorecerão a possíveis intervenções militares em um futuro próximo. Como vemos a História está praticamente se repetindo, mas exemplos como o de Geisel e o do General Figueiredo, que veremos a seguir devem ser levados em conta.

Em 1982, a Argentina e a Inglaterra disputavam a posse do Arquipélago das Malvinas no conflito que ficou conhecido como Guerra das Malvinas. Preocupado com os desdobramentos do conflito, que poderia alcançar a Argentina continental e pôr em perigo outras nações, o presidente militar João Figueiredo que governou o Brasil entre 1979 a 1985, alertou os Estados Unidos, em dois encontros que teve com o presidente Ronald Regan, que iria intervir em favor dos Argentinos caso o conflito chegasse ao continente. (MORAES, 2012). Ou seja, os interesses brasileiros e da América do sul se sobrepuseram aos do Norte nestes dois governos.

Por Graan Barros

BRIGAGÃO, Clóvis. Política externa brasileira: da Independência aos desafios do século XXI/ Clóvis Brigagão, Gilberto M. A. Rodrigues, – São Paulo: Moderna – (Coleção polêmica)

MORAES, Marcelo. Figueiredo ameaçou apoiar Argentina militarmente se britânicos a invadissem. Estadão. 2012. Disponível em:< https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,figueiredo-ameacou-apoiar-argentina-militarmente-se-britanicos-a-invadissem,856698>. Acesso em: 30 abr. 2018.

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