A QUEM INTERESSA O REBAIXAMENTO DA ECONOMIA BRASILEIRA

brasil, economia, rebaixamento, standard & poor's, agência, bbb, investimento
 
Parece uma insanidade, mas empresas, bancos e investidores que habitam a parte rica do mundo levam a sério as decisões tomadas pelas agências internacionais de risco, esses centros de análise que vira e mexe promovem ou rebaixam a economia de um determinado país, segundo critérios definidos por alguns poucos técnicos.
 
E foi só por tudo isso que, nesta semana, o governo brasileiro acusou o golpe assim que a Standard & Poor’s anunciou a queda de uma posição do país em seu nível de investimento, saindo do “BBB” para o “BBB-“.
 
Bom, a Standard & Poor’s é a mesma que furou feio ao não captar (ou fazer de conta que não captou) o início da grave crise econômica norte-americana há seis anos, um problema motivado pela prática de conceder crédito imobiliária à quem não tinha como pagar e que levou o país a um endividamento interno a tal ponto que teve quem afirmasse que a única solução para sair do lodo seria apagar e fazer tudo de novo.
 
Pois é, tanto a agência de risco quanto esses comentaristas do caos erraram feio em suas previsões. Os Estados Unidos estão saindo da tempestade e o Brasil retomando sua sina histórica, descendo um degrau em sua escala de atração de investimentos (lê-se, a capacidade de atrair dinheiro para empresas e projetos de infraestrutura).
 
E, como dito, assim que rebaixado, reação do governo brasileiro foi mais uma vez digna de quem, há quatro anos, merece mesmo levar bordoada dos donos do dinheiro.
 
Dilma Rousseff tentou logo desqualificar o rebaixamento da Standard & Poor’s : “[A decisão da agência] é inconsistente com a condição da economia”, foi o teor da nota do Ministério da Fazenda. Daí a dizer que os gringos que analisam o Brasil não são capazes disso foi um pulo (o ministro Gilberto Carvalho falou que “esses caras não andam pelo Brasil”).
 
Mais uma vez: sem discutir a validade e até a competência dessas agências de análise de risco, a questão é que o governo brasileiro tem um padrão de reação em momentos críticos que, cá entre nós, é tão previsível quanto destrutivo.
 
Sempre que vejo os técnicos e soldados de Dilma em pleno alto de desqualificação de uma crítica, surge em minha mente a imagem do alcoólatra que, apesar de rendido pela bebida e jogado à sarjeta, ainda é capaz de buscar forças para afirmar que tanto não está bêbado, quanto se tem tomado um pouco demais nos últimos tempos, ainda assim ele é capaz de parar a qualquer momento.
 
Pois o governo brasileiro, que tem méritos em muitos campos, padece desse mal na condução de sua política econômica. Está ficando constrangedor para os soldados mais fieis de Dilma e Mantega, o ministro da Fazenda, contra argumentarem as críticas de que as contas públicas estão em processo de deterioração (gasta-se muito dinheiro com decisões equivocadas e milhares de cargos de confiança). Assim como não dá para explicar de maneira razoável como, afinal de contas, Dilma vai cumprir a sua promessa de superávit primário (o dinheiro que sobra entre a arrecadação e o pagamento da dívida pública) em 1,9% do PIB.
 
É por essas e outras que a tal da agência internacional de risco vem ao Brasil e diz que as coisas estão indo mal, e que o Brasil precisa se preocupar um pouco mais com isso, sob pena de ir sendo rebaixado até se tornar uma figura non grata entre os capitalistas da parcela desenvolvida do globo.
 
No momento, o Brasil ainda se enquadra na Standard & Poor’s como uma economia recomendável para investimentos. Mas, com o rebaixamento de agora, se um investidor bater na porta da agência cheio de dinheiro no bolso e pedindo uma recomendação que leve em conta a segurança da operação, países como Rússia, República Tcheca, México, Malásia e até o Peru levam vantagem.
 
E, olha, se você, leitor, ficou incomodado com isso, então aceite meu convite de pegar uma cadeira confortável, escolher alguns livros divertidos e tentar colocar sua cabeça em outro assunto pelo tempo em que aceitar. Daqui até as eleições (o final do ano, portanto), nada, absolutamente nada de novo vai acontecer. Pode ir para a rua, colocar sua máscara do V de Vingança, queimar pneu velho (por favor, deixe quietinhos os carros de reportagem e as vidraças de bancos e de prédios públicos). Você pode derrubar meio mundo que o governo não vai colocar a mão na política econômica. Vai empurrar com a barriga todos os problemas na tentativa de uma reeleição. Daí, depois disso, bom, depois disso, nem mesmo a sábia Standard & Poor’s é capaz de prever o que pode acontecer.
 
Fonte: Voz da Rússia
 

Você pode gostar...